ZERO 7 "THE GARDEN"
Ainda me recordo do dia de 2001 em que entrei na Fnac e ouvi pela primeira vez "Simple Things". Fiquei anestesiado com a simplicidade e pureza do som produzido pela dupla Henry Binns e Sam Hardaker. Apesar das comparações aos Air, aquela música irradiava - e ainda o faz - uma personalidade tão própria que as semelhanças com o duo francês passaram para segundo plano e discutir aparência e equivalência eram meras redundâncias. A música por vezes quer-se simples, bonita, feliz e despreocupada; quer-se intemporal e luminosa, capaz de despertar sentimentos e soltar a imaginação e voar eternamente como se fosse um balão. Foi exactamente isso que os Zero 7 se propuseram enquanto erguiam "Simple Things": edificar uma música verdadeira, resplandecente e perspicaz, uma música que retratasse um mundo simples, idílico e alagado no amor, evitando ao mesmo tempo leviandades emotivas.
Dois anos depois, em 2004, editam o segundo álbum "When it Falls" e as premissas não se distanciaram muito. Os intervenientes eram basicamente os mesmos, as estruturas das canções mantinham os mesmos pressupostos, a mesma luz e intensidade. Apesar de não irem muito além do que havia sido produzido em 2001, os Zero 7 souberam manter os níveis do ecletismo e da elegância sonora por serem produtores hábeis. Essencialmente demonstrar que têm prazer na música que fazem.
Ao escutar o novo álbum "The Garden" não será difícil concluir que ainda não foi desta que viraram definitivamente a página. A sombra de "Simple Things" continua a pairar por aqui, só que de maneira ligeiramente diferente. De forma equilibrada e racional, sobressai uma pequena obsessão pela pop-folk-rock dos anos 70. A subtilidade de uma mudança lenta. Talvez seja mesmo essa a intenção, evoluir lentamente, acrescentar algumas ideias novas aqui e ali. A relação de cordialidade pop com a electrónica mantém-se imaculada. A voz soul, quente e aveludada de Sia Furler ainda nos consegue fazer esquecer os males do quotidiano e acreditar que por momentos podemos fechar os olhos e sonhar. Ou, sem que nenhum mal venha ao mundo, entoar um canto folk sobriamente infantil - talvez na feira popular? - e fam
iliar no maravilhoso Pageant of Bizarre. Ou ainda obrigar-nos a imaginar o ideal por detrás de qualquer cena social perfeita recorrendo a melodias cósmicas que evidentemente não soam a novo, mas também não importunam - This Fine Social Scene.
Um dos elementos que mais permite distanciar este trabalho dos outros, para além da pequena obsessão pop-rock-folk vincadamente anos 70, é a presença de José Gonzales em quatro dos doze temas de "The Garden", contribuindo ele mesmo, com o seu estilo melancólico - evidenciando tiques Gilbert O’Sullivan - para este ambiente nostalgico onde voz e guitarra imperam. Surpresa agradável surge no fim quando Crosses - um original de Gonzales - aparece reconfigurado à maneira dos Zero 7, que optam por estilo Philly disco caleidoscópio. Um dos momentos altos do disco.
Empiricamente pode dizer-se que dificilmente estes senhores conseguiriam produzir um mau disco, apesar do seu esforço para virar costas ao som do primeiro álbum não ser grande. Assim todo o disco sofre de uma dualidade, balançando-se cuidadosamente entre o que foram e o que querem ser, entre jogar pelo seguro e sair momentaneamente para arriscar. É nesse equilíbrio seguro que se joga neste jardim. Quando o fantasma "Simple Things" começa a pairar e a criar sombra, o tema seguinte altera subtilmente a coordenada, alterando-se a trajectória do voo. A mudança não é substancial, mas lá vai-nos desviando da rota habitual.
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