Sunday, May 07, 2006
  O FUNK E OS LEFTIES SOUL CONNECTION
Funk, uma vez mais o funk! Como género que perdeu protagonismo durante os anos 80 e poucos sinais de vitalidade criativa deu nos anos 90, o meado desta presente década parece ter trazido para ordem do dia uma linguagem que parecia condenada a contentar-se com os clássicos de 60 e 70.
Reconhecido pelo seu ritmo sincopado, linhas de baixo densas e vivas, por revigorantes e salteados riffs guitarra, por uma secção de metais rica e naturalmente pelas inspirações provenientes do jazz, o funk, designação com conotações sexuais, é uma expressão musical norte americana com raízes nas canções de trabalho, nos louvores espirituais do gospel ou a intensidade introspectiva do blues, que ao longo de décadas soube absorver outras matrizes enraizadas na cultura negra. À semelhança de outros géneros, revelou capacidade de fundir-se com outras referências e evoluir para um estádio próprio, com personalidade, capaz de inspirar gerações.
Em finais de 60 e princípios de 70, James Brown, The Meters ou os Sly & The Family Stone fizeram incidir sobre o funk a luz do reconhecimento, obrigando a estremecer os preconceitos gerados tanto em torno da expressão funk (ou funky como também chegou a ser designado), da dança, bem como da música, trazendo inovações no campo da ênfase rítmica, da entoação soul. O género cresceu… e como em qualquer arte, surgiram progressões genéticas naturais: seguiu-se o p-funk de George Clinton ou o electro-funk de Herbie Hancock, entre outras derivações; não pretendendo ficar preso a paradigmas, o funk procurou a evolução que não só estimulasse o presente, mas também garantisse subsistência para o futuro, no fundo uma herança para gerações futuras explorarem. É um pouco isso que tem-se passado nestes últimos anos em que uma nova geração de músicos tem vindo a explorar a velha escola e dai extraírem matéria para recontextualizar os paradigmas no presente, como é o caso da Quantic Soul Orchestra, Sharon Jones & The Dap Kings, a Breakestra, The Bamboos (com a edição de álbum de originais muito em breve) ou dos holandeses Lefties Soul Connection. Um pouco à semelhança dos norte-americanos Breakestra, os Lefties exploram a velha mina dos clássicos para dai retirarem o nervo que possa espevitar o gosto e interesse pela rebeldia rítmica e densidade melódica que caracteriza o funk; naturalmente existem semelhanças relevantes entre "Hit the Floor" e "Hutspot", bem como diferenças interessantes.
Poderá ser redutor a comparação entre ambos os projectos, mas essencial para poder-se perceber o caldeirão em que fervilha o funk dos nossos dias e, curiosamente, entender o que motiva uma geração, que no presente, tenta vigorosamente reescrever o passado numa “partitura” onde o sampler deixou de ser a motivação de trabalho, onde o estúdio deixou de ser o palco. Só assim se explicam projectos que procuram na interacção entre músicos, uma maneira de contornar as limitações que a programação parece provocar.
Analisemos duas diferenças vincadas: enquanto o álbum de estreia dos Breakestra foi erguido a pulso, com a elaboração de originais e muito trabalho de estúdio, "Hutspot" é apenas um compêndio de uma série vinis de 7” editados ao longo dos últimos quatro anos (aguarda-se a edição de um álbum de originais até ao fim do ano); em contrapartida as músicas do álbum do colectivo holandês são todas instrumentais e quase que todas elas gravadas em sessão única, revelando uma dinâmica live em estúdio que o colectivo norte-americano perdeu quando abandonou os palcos. Talvez aí residam as principais diferenças entre ambos os álbuns, a vontade de uns em construir sem preocupações de perfeccionismo, soltando as notas, deixando-as respirar e balançar ao sabor do ritmo (caso dos Lefties), em contraste com o constrangimento que foi construir um álbum de estúdio por parte de outros (os Breakestra).
Algumas semelhanças: O recurso aos mesmos instrumentos, apesar dos Lefties Soul Connection usarem abundantemente o órgão Hammond, a exploração da matriz cultural afro-americana, a busca da componente espiritual que possa trazer sentido a escrita, essencialmente rogam-se os paradigmas e provocam-se os clássicos sem nunca deixarem de ser óbvios na evocação dos mitos.
"Hutspot" poderá não ser na essência um trabalho conceptual, com principio meio e fim, poderá perder um pouco por ser uma antologia, e paradoxalmente ser uma obra maior sem ser a obra-prima do funk actual, fundamentalmente deixa a porta aberta para quem queira continuar a explorar as dinâmicas que o género exige, acabando, acidentalmente, por ser mais uma lição de criatividade artística, num tempo em que as amarras da pop dominam a força da liberdade conceptual e artistica. Vital!

SITES RELEVANTES:
http://www.leftiessoulconnection.com
http://www.funk45.com
http://www.wegofunk.com
http://www.newfunktimes.com
http://www.funkishere.com
http://www.ubiquityrecords.com
http://www.tru-thoughts.co.uk
http://www.deepfunk.org
http://www.jellyjazz.com
 
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    "De todas as artes que conseguem crescer no solo de uma dada cultura, a música é a última das plantas a germinar, talvez porque é a mais interiorizada, e, por conseguinte, aquela cuja época vem mais tarde é o Outono e a desfloração dessa cultura. A alma da Idade Média cristã encontrou a sua expressão mais acabada na arte dos mestres holandeses: a arquitectura musical por eles elaborada é a irmã póstuma, não obstante legí­tima e igual em direitos, da arte gótica. Foi na música de Haendel que tomou forma musical aquilo que de melhor havia na alma de Lutero e dos seus, esse acento judaico-hebráico que deu á Reforma um certo ar de grandeza: o Antigo Testamento faz música, o novo não. Mozart, o primeiro, restituiu em metal soante todas as aquisições do século de Luí­s XIV e a arte de um Racine e de um Claude Lorrain. Há na música de Beethoven e de Rossini que a melodiosamente respira o século de XVIII, o século do devaneio, do ideal destruído, da fugaz felicidade. Toda a verdadeira música, toda a música original, é um canto do cisne. Talvez a nossa música moderna, seja qual for o seu império, e a sua tirania, tenha diante de si apenas um curto espaço de tempo, porque surgiu de uma cultura cujo solo minado rapidamente se afunda, de uma cultura que em breve será¡ absorvida."
    Friedrich Nietzsche In Nietzsche Contra Wagner.


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