O FUNK E OS LEFTIES SOUL CONNECTION
Funk, uma vez mais o funk! Como género que perdeu protagonismo durante os anos 80 e poucos sinais de vitalidade criativa deu nos anos 90, o meado desta presente década parece ter trazido para ordem do dia uma linguagem que parecia condenada a contentar-se com os clássicos de 60 e 70.
Reconhecido pelo seu ritmo sincopado, linhas de baixo densas e vivas, por revigorantes e salteados riffs guitarra, por uma secção de metais rica e naturalmente pelas inspirações provenientes do jazz, o funk, designação com conotações sexuais, é uma expressão musical norte americana com raízes nas canções de trabalho, nos louvores espirituais do gospel ou a intensidade introspectiva do blues, que ao longo de décadas soube absorver outras matrizes enraizadas na cultura negra. À semelhança de outros géneros, revelou capacidade de fundir-se com outras referências e evoluir para um estádio próprio, com personalidade, capaz de inspirar gerações.
Em finais de 60 e princípios de 70, James Brown, The Meters ou os Sly & The Family Stone fizeram incidir sobre o funk a luz do reconhecimento, obrigando a estremecer os preconceitos gerados tanto em torno da expressão funk (ou funky como também chegou a ser designado), da dança, bem como da música, trazendo inovações no campo da ênfase rítmica, da entoação soul. O género cresceu… e como em qualquer arte, surgiram progressões genéticas naturais: seguiu-se o p-funk de George Clinton ou o electro-funk de Herbie Hancock, entre outras derivações; não pretendendo ficar preso a paradigmas, o funk procurou a evolução que não só estimulasse o presente, mas também garantisse subsistência para o futuro, no fundo uma herança para gerações futuras explorarem. É um pouco isso que tem-se passado nestes últimos anos em que uma nova geração de músicos
tem vindo a explorar a velha escola e dai extraírem matéria para recontextualizar os paradigmas no presente, como é o caso da Quantic Soul Orchestra, Sharon Jones & The Dap Kings, a Breakestra, The Bamboos (com a edição de álbum de originais muito em breve) ou dos holandeses Lefties Soul Connection. Um pouco à semelhança dos norte-americanos Breakestra, os Lefties exploram a velha mina dos clássicos para dai retirarem o nervo que possa espevitar o gosto e interesse pela rebeldia rítmica e densidade melódica que caracteriza o funk; naturalmente existem semelhanças relevantes entre "Hit the Floor" e "Hutspot", bem como diferenças interessantes.
Poderá ser redutor a comparação entre ambos os projectos, mas essencial para poder-se perceber o caldeirão em que fervilha o funk dos nossos dias e, curiosamente, entender o que motiva uma geração, que no presente, tenta vigorosamente reescrever o passado numa “partitura” onde o sampler deixou de ser a motivação de trabalho, onde o estúdio deixou de ser o palco. Só assim se explicam projectos que procuram na interacção entre músicos, uma maneira de contornar as limitações que a programação parece provocar.
Analisemos duas diferenças vincadas: enquanto o álbum de estreia dos Breakestra foi erguido a pulso, com a elaboração de originais e muito trabalho de estúdio, "Hutspot" é apenas um compêndio de uma série vinis de 7” editados ao longo dos últimos quatro anos (aguarda-se a edição de um álbum de originais até ao fim do ano); em contrapartida as músicas do álbum do colectivo holandês são todas instrumentais e quase que todas elas gravadas em sessão única, revelando uma dinâmica live em estúdio que o colectivo norte-americano perdeu quando abandonou os palcos. Talvez aí residam as principais diferenças entre ambos os álbuns, a vontade de uns em construir sem preocupações de perfeccionismo, soltando as notas, deixando-as respirar e balançar ao sabor do ritmo (caso dos Lefties), em contraste com o
constrangimento que foi construir um álbum de estúdio por parte de outros (os Breakestra).
Algumas semelhanças: O recurso aos mesmos instrumentos, apesar dos Lefties Soul Connection usarem abundantemente o órgão Hammond, a exploração da matriz cultural afro-americana, a busca da componente espiritual que possa trazer sentido a escrita, essencialmente rogam-se os paradigmas e provocam-se os clássicos sem nunca deixarem de ser óbvios na evocação dos mitos.
"Hutspot" poderá não ser na essência um trabalho conceptual, com principio meio e fim, poderá perder um pouco por ser uma antologia, e paradoxalmente ser uma obra maior sem ser a obra-prima do funk actual, fundamentalmente deixa a porta aberta para quem queira continuar a explorar as dinâmicas que o género exige, acabando, acidentalmente, por ser mais uma lição de criatividade artística, num tempo em que as amarras da pop dominam a força da liberdade conceptual e artistica. Vital!