MODESELEKTOR "HELLO MOM!"
A saudade dos tempos em que cada disco revelava à consciência uma forma diferente de se estar vivo, uma interpretação singular do mundo ou o modo único de olhar a linha do tempo, com o presente a idolatrar o futuro incógnito, poderá fazer da palavra nostalgia uma mera expressão redutora do que realmente sentimos quando no nosso presente olhamos para o passado e nos apercebemos que a veia criativa que alimentou a electrónica no inÍcio dos anos 90, simplesmente deixou de trazer o oxigénio necessário para alimentar os neurónios. Com salvas excepções, alguém parece, ocasionalmente, relembrar-nos disso.
Trazer à ribalta alguns paradigmas de programação que pensavam-se mortos e transformá-los em linguagem própria, não é tarefa fácil quando à muito se espera por um disco que consiga trazer um sorriso espontâneo a caras fartas de medianeiras, mas parece ser esse o propósito desta dupla de Berlim que, sem quererem ser óbvios na arte do baralha-e-volta-a-dar, conseguem desconstruir algumas tendências passadas e reconstitui-las no presente num estilo muito empreendedor e revigorante. Foi pelo menos assim que reagi ao longo da primeira escuta de Hello Mom! da dupla Gernot Bronsert e Sebastian Szary, os Modeselektor. Depois de uma série de EP’s e remisturas, editam o álbum de estreia na editora de Ellen Alien, a BPitch Control.
Hello Mom! é um registo recheado de humor e muito breakbeat. As inspirações electro, a sensualidade house ou certezas do techno, relembram-nos o tipo de programação que caracterizava os géneros na sua alvorada, num período em que tanto Chicago ou Detroit viviam da alma criativa dos mais astutos e sábios programadores, como também encontramos a Europa das raves no seu melhor. O hip-hop é aqui reforçado com beats robustos que marcam a cadência a sub-baixos ou corais sonoros carregados de energia.
Ao final de várias escutas é impossível não vir à memória os primeiros registos da Warp, em especial a série Artificial
Inteligence, onde sobressairam os Black Dog, Aphex Twin ou os B12, ou a forma de tratamento única do breakbeat de um Squarepusher. A recontextualização de algumas linguagens parece ser algo tido em conta ao longo da elaboração de Hello Mom!, mas saber se foi acidental ou propositado será uma questão para os autores responderem no futuro.
A forma de olhar para a electrónica que aqui encontramos poderá não ser nova, mas a perspicácia de a trabalhar de forma pessoal com o mesmo espírito do início dos anos 90, traz uma visão, não nostálgica, mas uma que nos leva a acreditar que há cada vez mais gente que acredita no espírito libertino que caracterizou a alvorada das raves, sem problemas de assumir uma escola que marcou uma era ou de nos devolver a programação no seu estado mais primário mas coerente e simultaneamente iluminar-nos com uma inventividade electro longe de clichés. Muito interessante!
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