COMPOST 200: FRESHLY COMPOSTED
…e vão duzentos!!!! Doze anos depois de Michael Reinboth (na foto em baixo) ter iniciado actividades num pequeno quarto que improvisava uma pequena etiqueta e depois ter lançado para o mercado nomes como Truby Trio, Fauna Flash ou Beanfield, a Compost Records comemora agora a sua 200ª "prensagem" com a edição de uma compilação que, à semelhança de 2001 (quando atingiram o numero 100), marca a ocasião... É indiscutível a importância da Compost na última metade da década de 90, tanto na forma como promoveram um novo tipo pensamento em torno do Jazz ou da Soul, que acabou por influenciar, senão mesmo contaminar, mentalidades que olhavam para a música de dança num prisma exclusivamente quatro por quatro, bem como a forma de por à prova uma nova estrutura empresarial onde uma pequena editora conseguisse ter o controlo completo desde a produção á pos-produção ou da promoção dos seus produtos à sua distribuição, bem como organizar eventos em que se vendesse uma imagem.
A Compost Records desde cedo ficou conotada com o Nu-Jazz onde prevaleciam os ritmos quentes do Samba ou um Breakbeat desconcertado, que mais tarde acabou por se designar por Brokenbeat.
As primeiras gravações dos Jazzanova foram editadas pela JCR (Jazzanova Compost Records), um género de subsidiária, os Truby Trio, Fauna Flash e os Beanfield revelaram a sua proficiência logo desde cedo, despertando atenções e trazendo reconhecimento a uma pequena editora de Munique. Pela editora passaram outros projectos com algum reconhecido sucesso como A Forest Mighty Black, Knowtoryus, Four Ears, Koyoto Jazz Massive, Le Gammas ou os Koop, mas os nomes porta-estandarte mantiveram-se como referências e sinónimo da marca Compost. Para além da riqueza de muitos dos nomes do catálogo, mesmo que alguns já tenham sido esquecidos pela história, um dos outros elementos que prestigiou a editora foram as colectâneas. A qualidade da selecção, a prespicácia dos Dj, a atenção no alinhamento, o especial cuidado no design das capas ou os títulos que davam o mote ao
conteúdo, tornaram antologias como The Future Sound of Jazz ou Glücklich em referências do Nu-Jazz mais competente produzido dentro e fora da Alemanha, mostrando com regularidade uma editora atenta ao que se produzia um pouco por toda a Europa. A Compost Records notabilizou-se também pelos laços de amizade que criou amiúde com outras editoras, promovendo eventos onde o intercâmbio não só dava a conhecer outros projectos musicais, como acabavam por tornar possíveis colaborações entre projectos que movimentavam-se na mesma área, não tendo passado despercebidas, nos primeiros anos de vida, as colaborações de Peter Kruder, de Richard Dorfmeister ou os The Amalgamation of Soundz.
Com o resfriamento criativo do Nu-Jazz no início do milénio, a editora de Munique procurou, um pouco à semelhança da Sonar Kollektiv (agora gerida pelos Jazzanova a tempo inteiro), encontrar nas novas linguagens da Soul ou da Pop uma forma de manter o interesse de uma legião de fans por um editora que agora era reconhecida mundialmente pela sua independência e coragem na forma lidar com o mercado. A Compost sempre tentou inspirar o mercado com as suas novidades, mas também sempre soube manter uma distância segura que evitasse a devoração em caso de ataque súbito.
O protagonismo do Nu-Jazz diminuiu nos últimos anos, mas em contra partida a nova Soul acabou por ganhar a visibilidade que à muito merecia e a Compost apercebeu-se das potencialidades e encontrou em Joseph Malik, Ben Mono, Alex Attias, Eddy Meets Yannah ou até Beanfield uma forma de contribuir para uma Soul vincadamente europeia que tardiamente demarcou-se da congénere norte americana, uma Soul assente nos pressupostos do Breakbeat e não tanto na estrutura clássica dos velhos ensinamentos da Motown. Visto o passado, o que é a Compost Records em 2006? E o que representa esta antologia que pretende essencialmente comemorar doze anos de existência ou simplesmente a 200ª edição? Agora chegou uma vez mais a ocasião de olhar para o passado recente da Compost, bem como conhecer as perspectivas para o futuro (porque é disso mesmo que trata esta colectânea). As conclusões não são difíceis. É fácil admitir que a editora perdeu alguma da pedalada criativa que a caracterizava, como tem provado a desinteressante colecção Compost Black Label ou as colectâneas recentes I Like it ou Soulsearching, que nem sempre têm ido em contra as ansiedades dos melómanos, mas também é fácil concluir que ninguém naquela casa encostou-se à “sombra da bananeira” ou resignou-se com as mudanças que são tão típicas na música, mantendo-se a procura de novos nomes que possam revitalizar velhos espíritos.
Além de manterem-se alguns nomes que marcaram o
passado, Beanfield ou Truby Trio, e o passado mais recente como Ben Mono, Intuit, Eddy Meets Yannah, começam a surgir novos nomes no catálogo como Muallem, Product.01, Alif Tree, Jean-Paul Bondy ou Felix Laband, todos incluídos em Compost 200: Freshly Composted. Todos estes nomes preparam trabalhos de longa duração que provavelmente verão a luz do dia no decorrer deste presente ano de 2006. Comparativamente a Compost One Hundred de 2001, poucos são os nomes em comum com Compost 200: Freshly Composted, provando assim que a editora não procurou contentar-se com os mesmos nomes ou subsistir com os nomes que fizeram marca, reconhecendo ainda que se o tivesse feito, provavelmente uma comissão de liquidação teria já tomado conta dos escritórios de Munique.
A mudança é óbvia e ainda bem que o reconhecemos, apesar de alguns nomes serem pouco interessantes. Há uma evidente prudência em boa parte dos temas que aqui encontramos, provando-se uma vez mais que existe um certo receio em arriscar, como se o risco tivesse de ser cautelosamente equacionado. É verdade que não é um mal exclusivo desta editora. Em tempos de crise, nada como jogar pelo seguro, tornando-se regra o baralha-e-volta-a-dar. Existem excepções nesta antologia como o erótico "Sweat" de Muallem, "I feel Blue" do françês Alif Tree ou a remistura de Henrik Schwarz para "Faces And Places" de Wei-Chi que conseguem traçar metas um pouco mais distantes das restantes medianias produzidas. No fundo, por aqui nada é mau, mas também nada consegue deixar-nos surpresos...
Apesar de nada verdadeiramente novo acontecer na Baviera, ocasionalmente, a curiosidade obriga-nos a olhar para lá e tentar descobrir o que por lá se vai engendrando, pois nunca se sabe ao certo o que motiva toda aquela gente a continuar a trabalhar numa conjuntura de crise...
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