COLDCUT "SOUND MIRRORS" / INCOGNITO "ELEVEN"
O que fazer se dinossauros, que viveram no e o seu tempo, voltassem a percorrer as ruas da nossa metrópole? Não seria difícil chegar à conclusão: incapacidade de resposta.
Não que fosse impossível o homem defender-se, mas o simples facto de algo tão primário e violento viver num tempo que não é o seu, deixaria qualquer um com dificuldades de resposta imediata, para não dizer completamente siderado. Pondo de lado a imaginação, e deixando os dinossauros comilões para as sequelas do Parque Jurássico, o espírito da pergunta do primeiro parágrafo mantém-se: como reagir a algo que pensávamos ter deixado de existir e que subitamente volta a dar sinais de vida? Ou até que ponto fará sentido o regresso? Perguntas dirigidas aos Coldcut e aos Incognito, que decidiram regressar, ao fim de tantos anos de inactividade, à prática de produção de matéria própria. É certo que a indústria está cheia de exemplos de mortos
renascidos, mas isso não deixa de, ocasionalmente, sermos forçados a reflectir sobre estas Fénix renascidas e nos interrogar com o seu propósito. No caso destes dois projectos, únicos na sua maneira de ser mas únicos também no seu tempo, renascem com trabalhos de boa produção mas simplesmente inócuos, onde revelam o desequilíbrio que o tempo de inactividade provoca. Presos entre aquilo que foram e o que querem ser, com algum espírito mas sem perspicácia para fazerem-se valer do estatuto dos seus autores, tanto Sound Mirrors como Eleven, relembram-nos que o tempo das ideias que fundaram ambos os projectos já lá vai e que uma identidade forte sem a capacidade para combater o vazio criativo, também de pouco serve. Perda de tempo? Não. Mas inconsequente tanto para as suas sagradas carreiras, como para a conjectura musical actual.